Ana Lídia Braga: Ditadura, Influência e Mistério

Por Diego Bayer

 

Terça feira, 11 de setembro de 1973, Brasília, Distrito Federal. O país estava afogado pelo período mais cruento da ditadura militar. Com ordens do presidente Médici, a imprensa vivia amarrada pela censura, a lista de presos políticos, de exilados, de mortos e de desaparecidos crescia especialmente com os cada vez mais duros ataques do Exército à guerrilha do Araguaia. Brasília era cidade pela metade. Prédios construídos, urbanização precária, largas áreas desabitadas, edifícios públicos planejados, porém não executados. Não havia nenhuma das três pontes: o único acesso ao Lago Sul era pelo Balão do Aeroporto. A Asa Norte era um semi-ermo. Não havia nenhum ponto de ônibus na W-3 Norte e a L-2 Norte tinha recebido asfalto naqueles dias. Autódromo, Estádio e Centro de Convenções estavam sendo construídos. O Parque da Cidade não existia.

Eloyza Rossi Braga e Álvaro Braga estacionam o Vemaguete cinza claro na porta do Colégio Madre Carmen Salles às 13h50min. Eloyza desce do carro e acompanha sua filha de 7 anos à escola, deixando-a 10 passos da sala de aula, com a merendeira. Despediu-se com um beijo.  Mal sabia ela que seria a última vez que veria sua filha com vida. Eloyza e Álvaro eram funcionários públicos do Departamento de Serviço de Pessoal, o DASP. Ana Lídia estudava de manhã, estava na 1ª série, mas às terças e sextas-feiras a tarde tinha aula de reforço, onde ficava das 14h às 16h30min, quando a empregada da família vinha buscá-la.

Ana Lídia

Benedito Duarte da Cunha, 31 anos, jardineiro da escola viu quando Ana Lídia chegou e notou que um homem alto, magro, claro, cabelos loiros, calça marrom ou verde-oliva, tipo militar e com um livro vermelho na mão chama a menina. Os dois saem normalmente pelo portão lateral, sendo que Ana Lídia não grita e nem resiste, seguindo-o. Relata o jardineiro que este homem já estava no pátio da escola, escorado em uma árvore quando Ana desceu do carro dos pais. Diva Aparecida dos Anjos, 32, dona de casa, estava em frente ao barraco que possuía, decorrente de uma invasão na 604 Norte e viu Ana Lídia passando, achando que estava voltando da escola, seguida atrás de um rapaz de cor morena, estatura mais baixa e cabelos ondulados. Já Tomé Marcelo da Cunha, 9 anos, viu quando a menina entrou com um homem em um táxi (um fusca vermelho) e seguiram na direção da Universidade de Brasília (UnB).

Às 16 horas daquela terça feira, Álvaro Braga é procurado por sua esposa Eloyza, qual estava bastante nervosa, para informar que Ana Lídia não havia assistido às aulas. A irmã Madre Celina havia ligado para Eloyza no trabalho depois que a empregada da família apareceu para buscar a menina, para confirmar se ela havia sido deixada na escola. Com a confirmação da ausência, começam as buscas. Álvaro volta para sua casa na esperança de que a filha esteja lá, mas não a encontra. Pede ajuda ao filho e a namorada dele, para procurá-la, percorrendo os arredores da escola e descampados da Universidade de Brasília. Às 17h, a polícia é avisada do desaparecimento de Ana Lídia e as buscas são intensificadas.

Às 19h45min, o delegado da 2ª Delegacia de Polícia, José Ribamar Morais, recebe um telefonema anônimo pedindo um resgate de 2 milhões de cruzeiros pela menina Ana Lídia. Relata que a menina foi colocada ao telefone, chorava e pedia pela mãe. Nenhum outro contato é feito. Um funcionário do Supermercado SAB, da 405/406 Norte, encontra, nesse mesmo dia, sobre uma pilha de sacos de arroz, uma carta endereçada a Álvaro Braga. Em texto escrita à máquina, num envelope manuscrito, o sequestrador exige 500 mil cruzeiros pela devolução de Ana Lídia. O dinheiro deve ser colocado num local próximo à Ponte do Bragueto até sexta-feira 14.

Às 20 horas, perto do quartel, um fuzileiro do Grupamento de Fuzileiros Navais da Vila Planalto encontra um estojo de lápis, sem imaginar a quem pertencia. Logo após a polícia encontrou os cadernos da menina, jogados a margem da pista do Grupamento de Fuzileiros Navais. A boneca Susi, que ela levava para a escola, é encontrada pela filha de um fuzileiro naval. Intensificam-se as buscas perto deste local. Às 13 horas do dia 12 de setembro, o agente Antônio Morais de Medeiros, descansando da busca pela menina, vê um rato passando e entrando em uma toca, com sinais de ter sido remexida recentemente. Ao remover a terra encontrou o corpo, além das madeixas de cabelo de Ana Lídia e duas marcas de bota ou coturno.

O corpo de Ana Lídia estava numa vala rasa no cerrado próximo ao Centro Olímpico da UnB. A menina foi enterrada nua, de bruços e com a face comprimida contra o chão. O local era praticamente deserto. A perícia constata que antes de ser assassinada, Ana Lídia foi torturada, seus cabelos loiros foram cortados de forma irregular, bem rente ao couro cabeludo. Os cílios da metade interna da pálpebra superior esquerda foram arrancados. Havia escoriações e manchas roxas por todo o corpo, sinais de que ela foi comprimida ou arrastada pelo cascalho.

 

O laudo do exame cadavérico, realizado em 12 de setembro, constata que Ana Lídia foi estuprada depois de morta, por apresentar lesões características post-mortem. A vagina e o ânus ficaram dilacerados. No local foram encontradas duas camisinhas usadas e papel higiênico com esperma. Laudos do Instituto de Medicina Legal e do Instituto de Criminalística comprovariam depois que os espermas eram de uma mesma pessoa.  Ana Lídia foi morta entre 4h e 6h da manhã do dia 12 por asfixia. Ela teve o rosto comprimido contra a terra, sem chances de respirar pela boca e nariz. Ela passou 17 horas com o assassino.

A polícia diz que o irmão da menina, Álvaro Henrique Braga, é o principal suspeito de ter buscado a menina na escola. O jardineiro Benedito reconhece-o como o homem que levou Ana Lídia da escola, pesando ainda sobre ele o envolvimento com drogas e dívida com os traficantes e que o sequestro da irmã seria um modo de liquidar a dívida. Os pais defendem Álvaro Henrique dizendo que o mesmo estava no banco de trás quando deixaram a menina na escola, sendo confrontados pelo depoimento do jardineiro que disse que não havia mais ninguém no banco traseiro. Além do jardineiro, Nair Gomes Pinto, 13 anos, estudante do colégio também contou que não viu mais ninguém no banco de trás do carro dos pais de Ana Lídia. Em depoimento à polícia, Álvaro Henrique confessou ter consumido maconha apenas três vezes e revelou que pedira dinheiro emprestado ao pai e amigos para pagar o aborto de 1,5 mil cruzeiros da namorada Gilma Ely Varella Albuquerque, 19 anos, grávida de um mês. Álvaro tinha uma Yamaha 100 cilindradas e usava a moto para ir ao cursinho Laser Vestibulares, na Asa Sul.

Além de Álvaro Henrique, surge outro suspeito, Raimundo Lacerda Duque. Duque era considerado um protegido de Eloyza, mãe de Ana Lídia. O conheceu quando era funcionário da empresa Novacap lotado no DASP. Trabalhava no setor em que Ana Lídia chefia e sempre a pedia conselhos, tendo ela inclusive o orientado a procurar ajuda de um psicólogo. Todavia, Duque não era íntimo da família, tendo ida a casa da família apenas duas vezes. Duque tinha uma vida desregrada, sendo viciado em drogas (de diversos tipos), além de ser alcoólatra e ter confessado a polícia ter tara por menores. Morava em um acampamento da Metropolitana, no Núcleo Bandeirante. Em seu depoimento alegou que só soube do desaparecimento de Ana Lídia no dia seguinte ao desaparecimento, tendo ouvido a notícia no rádio e que só fugiu e trocou de nome quando soube que era considerado suspeito do assassinato da menina.

Com as investigações começou-se a desenhar um quadro perigoso, ricos e influentes possivelmente estava envolvidos no caso. Segundo as investigações, o irmão da vítima Álvaro Henrique Braga e sua namorada Gilma Varela de Albuquerque teriam vendido Ana Lídia a traficantes, entregando-a para Raimundo Lacerda Duque, qual verificou que era um dos principais chefes do tráfico de drogas em Brasília. Além de Duque, estariam ainda com a menina Alfredo Buzaid Júnior (Buzaidinho), filho do Ministro da Justiça Alfredo Buzaid, Eduardo Eurico Rezende (Rezendinho) filho do senador Eduardo Resende.

Raimundo Lacerda Duque, Álvaro Henrique Braga, Alfredo Buzaid Jr., Eduardo Henrique Rezende

Com os boatos da investigação de que pessoas importantes estavam envolvidas, o Departamento da Polícia Federal, órgão encarregado pela censura, enviou o seguinte comunicado às redes de televisão e jornais: “De ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação através dos meios de comunicação social escrito, falado, televisado, comentários, transcrição, referências e outras matérias sobre caso Ana Lídia e Rosana” (GODINHO, 2004).

Suspeita-se que em razão do possível envolvimento de filhos de pessoas importantes no crime, não houve avanço e aprofundamento nas investigações. Nem sequer verificou-se os possíveis compradores das camisinhas nas poucas farmácias que existiam em Brasília, época em que praticamente não se utilizava preservativos. No local onde Ana Lídia foi enterrada havia marcas de pneus de moto, qual a perícia sequer tirou um molde de gesso para comparar com a moto de Álvaro Henrique. Em relação ao bilhete encontrado no supermercado,  não foi feito exame grafotécnico, comparando a escrita à mão com a caligrafia dos suspeitos. O retrato falado do suspeito, que coincidentemente era muito parecido com Duque jamais foi juntado no processo.

O promotor relatou posteriormente que em uma conversa com Álvaro, pai de Ana Lídia, disse a ele: “O sr. perdeu uma filha em circunstâncias trágicas e quer salvar o outro filho. Evidentemente, não quer colaborar com as investigações, porque sabe que o seu filho participou desse crime. Ele não matou a irmã, mas é coautor, porque tirou a menina do colégio e entregou para esse celerado, esse Raimundo Lacerda Duque. Então, o sr. tomou uma decisão utilitária, prática: ‘Já perdi uma filha, não vou perder o outro filho’. Sabe o que aconteceu? Ele ficou em silêncio. Não disse absolutamente nada”. Ou seja, a própria família da vítima parece que não se empenhou mais muito em tentar desvendar o verdadeiro assassino.

O inquérito passou a correr sob sigilo. A materialidade estava confirmada, os indícios de autoria em relação a Álvaro Henrique Braga e Raimundo Lacerda Duque eram fortes e em razão disso o Ministério Público ofereceu denúncia contra eles. Os dois acusados tiveram a prisão preventiva decretada, mas acabaram ao final do processo absolvidos, e mesmo com o recurso do Ministério Público e toda a demonstração das provas, o Tribunal de Justiça manteve a absolvição. Em 11 de setembro de 1993, o crime de Ana Lídia prescreveu sem apontar nenhum culpado.

Verificou-se posteriormente que, em investigação paralela feita pelos militares, realizou-se uma movimentação para descredenciar as pessoas que serviam como testemunhas de acusação, principalmente pelo fato da investigação ter envolvido filhos de políticos influentes em Brasília. Alfredo Buzaid Júnior, o Buzaidinho, morreu em 1975 num acidente de carro, depois de ter ficado escondido por dois anos. Eduardo Ribeiro de Rezende, o Rezendinho, se suicida com um tiro no ouvido, em 1990, aos 40 anos, em seu apartamento no centro de Vitória (ES). Raimundo Duque morre em 2005, aos 62 anos, vítima de complicações decorrentes do alcoolismo. Álvaro Henrique Braga é angiologista no Rio de Janeiro.

Já para a pequena Ana Lídia, restou apenas seu nome em um parque dentro da região chamada Parque da Cidade em Brasília e seu túmulo é um dos mais visitados no cemitério da cidade, sendo cultuada por devotos que acreditam em milagres feitos pela menina, agora considerada uma santa. E o mistério para sempre ficará: quem assassinou Ana Lídia?

 

 

Diego Bayer é Advogado criminalista, Doutorando em Direito Penal, Professor de Penal e Processo Penal da Católica de Santa Catarina e autor de obras jurídicas

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